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terça-feira, 4 de agosto de 2015

Novena Meditativa a Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) - Dia 5º

5º dia da NOVENA – 2ª parte da Homilia do Papa São João Paulo II na cerimônia de beatificação da irmã Teresa Benedita da Cruz

6. Teresa, a abençoada pela cruz, este é o nome daquela mulher que iniciou o seu caminho espiritual com a convicção de que não existia absolutamente nenhum Deus. Nos anos da sua juventude e dos seus estudos, a sua vida não tinha ainda sido marcada pela cruz de Cristo; no entanto, esta constituía já o objeto da constante procura e do estudo da sua viva inteligência. Quando tinha quinze anos, na sua cidade natal, Breslávia, Edith, nascida numa família judia, decidiu "deixar de rezar", como ela mesma confessou. Apesar de ter sido profundamente impressionada pela forte fé da sua mãe, transcorreu os anos da juventude e de estudos com espírito ateístico.

Considerava inadmissível a existência de um Deus pessoal.
Nos anos dos seus estudos de Psicologia, Filosofia, História e Filologia germânica em Breslávia, Gotinga e Friburgo, Deus não ocupava nenhum lugar na sua vida. Todavia, professava um "idealismo ético muito elevado". De acordo com o seu grande talento, intelectual, não quis aceitar nada que não fosse provado, nem sequer a fé dos seus pais. Desejava por si mesma ir ao fundamento das coisas.

Por isso busca incansavelmente a verdade. Mais tarde, olhando para essa época de inquietude espiritual, reconheceu esse tempo como uma etapa importante do seu processo de maturação interior, afirmando: "A minha busca da verdade era uma verdadeira e própria oração" – maravilhosa frase de consolo para todos os que têm dificuldade em crer em Deus! A procura da verdade é já no mais íntimo uma busca de Deus.


Sob a forte influência do seu mestre, Husserl, e da sua escola fenomenológica, esta estudante inquieta dedicou-se cada vez mais decididamente à filosofia. Aprendeu sobretudo "a considerar tudo sem preconceitos e a rejeitar todas as viseiras". O encontro com Max Scheler em Gotinga, proporcionou a Edith Stein o primeiro contacto com as ideias católicas. Ela mesma escreve sobre isto: "As barreiras dos preconceitos racionalistas, nos quais eu cresci sem o saber, fecharam-se e o mundo da fé apareceu de repente diante de mim. Dele fazem parte integrante as pessoas, com quem me relacionava diariamente e eram por mim vistas com admiração".

A longa luta para uma decisão pessoal de aderir à fé em Jesus Cristo terminou só em 1921, quando ela começou a ler a "Vida de Santa Teresa de Ávila", livro escrito pela própria Santa e encontrado na casa de uma amiga.
Ficou imediatamente impressionada pela leitura e não a deixou enquanto não chegou ao fim. "Quando terminei à leitura, disse a mim mesma: Esta é a verdade". Esteve a lê-lo durante a noite toda, até ao amanhecer. Naquela noite ela encontrou a verdade; não a verdade da filosofia, mas a Verdade em Pessoa, o "Tu" amoroso de Deus. Edith Stein estava à procura da verdade e encontrou Deus. Sem mais delongas, pediu para ser batizada e recebida na Igreja católica.
7. A recepção do Batismo não significou de modo algum para Edith Stein a ruptura com o seu povo judeu. Pelo contrário, ela afirma: "Quando eu era uma jovem de catorze anos deixei de praticar a religião judaica, e só depois do meu retorno a Deus é que me senti judia". Ela sempre teve a consciência de que "pertencia a Cristo, não só espiritualmente mas também por descendência". Sofreu muito pela grande dor causada à mãe devido à sua conversão, mas continuava a acompanhá-la à Sinagoga e recitava com ela os Salmos. À afirmação da mãe de que também se podia ser piedosa sendo judia, ela respondeu: "Sem dúvida, mas quando não se conheceu outra coisa".

Embora desde o encontro com os escritos de Santa Teresa de Ávila o Carmelo tivesse sido a meta de Edith Stein, ela teve de esperar mais de dez anos, quando então Cristo lhe mostrou na oração o caminho para a entrada no Carmelo. Na sua atividade como mestra e professora, no trabalho escolar e nas tarefas de formação, desempenhada na maior parte em Espira e depois também em Monastério, ela continuou a trabalhar por conciliar ciência e fé. Neste mister queria ser apenas um instrumento do Senhor. "Quem vem a mim, quero conduzi-lo a Ele".

Já nessa atividade ela viveu como uma religiosa, fez os três votos privadamente e tornou-se uma grande e inspirada mulher de oração. Estudando intensamente São Tomás de Aquino, chega à conclusão de que é possível "praticar a ciência como um serviço divino... Só em virtude desta convicção é que pude decidir, em plena consciência, iniciar de novo (depois da conversão) um trabalho científico". Apesar do seu grande apreço pela ciência, Edith Stein vai percebendo com maior clareza que a essência do ser cristão não é o saber mas o amar.

Quando enfim, em 1933, Edith Stein entrou no Carmelo de Colônia, este passo não significou para ela uma fuga do mundo ou das próprias responsabilidades, mas uma participação ainda mais decidida no seguimento da cruz de Cristo. No seu primeiro colóquio com a Priora daquele Carmelo, ela disse: "O que pode ajudar-nos não é a atividade humana, mas a paixão de Cristo.”

O meu desejo é participar nela". Por isso mesmo, no momento da vestição não pôde expressar outro desejo senão o de ser chamada, na vida religiosa, "da Cruz". E, no santinho que recordava a sua profissão perpétua, ela pôs a frase de São João da Cruz: "A minha única missão de agora em diante será amar ainda mais".

8. Queridos irmãos e irmãs. Com toda a Igreja, inclinamo-nos hoje diante desta grande mulher, a quem de agora para o futuro poderemos chamar bem-aventurada na glória de Deus; inclinamo-nos diante desta grande filha de Israel, que em Cristo, o Redentor, descobriu a plenitude da sua fé e da missão para com o Povo de Deus.

Segundo a convicção de Edith Stein, quem entra no Carmelo "não perde os seus, mas os reencontra, pois a nossa vocação é precisamente a de ser para todos diante de Deus. A partir do momento em que começou a entender o destino do povo de Israel "sob o sinal da Cruz", a nossa nova Beata foi desejando cada vez mais assimilar Cristo no seu profundo mistério de Redenção, para se sentir na unidade espiritual com os múltiplos sofrimentos do homem e para expiar as injustiças deste mundo que clamam ao céu. Como "Benedita da Cruz", ela quis levar a sua cruz juntamente com a de Cristo pela salvação do seu povo, da sua Igreja e do mundo inteiro. Ofereceu-se a Deus como "sacrifício expiatório pela paz verdadeira", e sobretudo pelo seu povo oprimido e humilhado. Depois de ter sabido que Deus de novo tinha com força pousado a Sua mão sobre o seu povo, convenceu-se de que "o destino deste povo era também o seu".

Na sua penúltima obra teológica "A ciência da Cruz", que começara a escrever no Carmelo de Echt como Irmã Teresa Benedita da Cruz que todavia não pôde concluir porque teve de empreender o seu caminho da cruz – ela observa: "Quando falamos de ciência da Cruz não entendemos... como pura teoria, mas expressamos uma verdade viva, real e efetiva". Quando vislumbrou sobre ela, como uma nuvem espessa, a ameaça de morte que pesava sobre o seu povo, mostrou-se disposta a testemunhar com a própria vida o que aprendera anteriormente: "Há uma vocação a padecer com Cristo e, como consequência, a colaborar na sua obra de salvação... Cristo continua a viver nos seus membros e neles continua a sua paixão; o sofrimento suportado em união com o Senhor é a Sua paixão, o qual está inserido na grande obra de redenção e mediante ela se torna fecundo".

Com a sua irmã Rosa, a Irmã Teresa Benedita da Cruz percorreu o caminho para o extermínio, unida ao seu povo e "pelo" seu povo. Todavia, não aceitou passivamente o sofrimento e a morte, mas uniu-os conscientemente ao Sacrifício expiatório do nosso Salvador Jesus Cristo. Alguns anos antes, escrevera no seu testamento espiritual: "Desde já aceito a morte que Deus me tem reservada, com alegria e completa submissão à Sua santíssima vontade. Peço ao Senhor que se digne aceitar, o meu sofrimento e a minha morte, para seu louvor e glória, por todas as necessidades... da Santa Igreja". O Senhor escutou esta oração.

A Igreja propõe hoje à nossa veneração e imitação a Beata Mártir Teresa Benedita da Cruz, exemplo de seguimento heroico de Cristo. Abramo-nos à mensagem que ela nos dirige como mulher do espírito e da ciência, que na ciência da Cruz conheceu o ápice de toda a sabedoria; como uma grande filha do povo judeu e uma grande cristã no meio de milhões de irmãos inocentes martirizados. Ela viu que a cruz se aproximava de forma implacável, mas não fugiu atemorizada; pelo contrário, animada pela esperança cristã, abraçou-a com amor e entrega total e penetrada pelo mistério da fé pascal, saudou-a à sua chegada: "Ave Crux, spes unica!".

Como disse na sua breve Carta pastoral o vosso venerado Cardeal Höffner: "Edith Stein é um dom de Deus, uma advertência e uma promessa para a nossa época. Possa ela interceder junto de Deus por nós, pelo nosso povo e por todos os povos!".

9. Queridos irmãos e irmãs. A Igreja do século XX vive hoje um grande dia! Inclinamo-nos profundamente diante do testemunho da vida e da morte de Edith Stein, ilustre filha de Israel e ao mesmo tempo filha do Carmelo, Irmã Teresa Benedita da Cruz; uma personalidade que reúne na sua rica vida a síntese dramática do nosso século. A síntese de uma história cheia de feridas profundas que ainda hoje continuam a fazer sofrer, mas que homens e mulheres com sentido de responsabilidade se esforçaram e continuam a esforçar-se por sanar; síntese ao mesmo tempo da verdade plena sobre o homem, num coração que esteve inquieto e insatisfeito "enquanto não encontrou a paz em Deus".

Ao dirigirmo-nos espiritualmente para o lugar do martírio desta grande judia e mártir cristã, para o lugar daquele acontecimento terrível que hoje se chama "Shoah", escutamos a voz de Cristo, o Messias e Filho do homem, o Senhor e Redentor.

Como mensageiro do mistério insondável de Deus, Ele diz à Samaritana junto do poço de Jacob:
"A salvação vem dos judeus. Mas vai chegar a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são esses os adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito e os Seus adoradores em espírito e verdade é que O devem adorar" (Jo. 4, 22-24).

Bendita seja Edith Stein, Irmã Teresa Benedita da Cruz, uma verdadeira adoradora de Deus, em espírito e verdade.
Sim, bendita!

Fonte:

Em Colônia, no Rito de Beatificação, publicado no jornal L'Osservatore Romano, edição semanal em português n. 20 (912), 17 de maio de 1987, págs. 5/6 (253/254).

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Novena Meditativa a Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) - Dia 4º



4º dia da NOVENA – 1ª parte da Homilia do Papa São João Paulo II na cerimônia de beatificação da irmã Teresa Benedita da Cruz

(01/05/1987)

No final da liturgia da Palavra, o Santo Padre pronunciou a seguinte homilia:
"Estes são os que vieram da grande tribulação; lavaram os seus vestidos e os branquearam no sangue do Cordeiro" (Apoc. 7, 14).

1. Entre estes homens e mulheres bem-aventurados, saudamos hoje com veneração profunda e santa alegria uma filha do povo de Israel, rica em sabedoria e fortaleza. Formada na rígida escola da tradição de Israel e caracterizada por uma existência de virtude e de renúncia na vida religiosa, ela demonstrou um ânimo heroico no caminho para o campo de extermínio. Unida a Cristo crucificado, entregou a sua vida "pela paz verdadeira" e "pelo povo": Edith Stein, judia, filósofa, religiosa, mártir.
(...)Com a beatificação de hoje realiza-se um desejo acalentado durante muito tempo, não só pela Arquidiocese de Colônia, mas também por muitos cristãos e muitas comunidades na Igreja. Há sete anos, a Conferência Episcopal Alemã apresentou unanimemente este pedido à Santa Sé, e a este pedido uniram-se outros Bispos simpatizantes da causa, de diversos Países. Por isso grande é a alegria que todos nós sentimos hoje ao satisfazer este pedido e de poder nesta solene liturgia, diante dos fiéis e em nome da Igreja, declarar a Irmã Teresa Benedita da Cruz como Beata na glória de Deus. Poderemos a partir de agora venerá-la como mártir e solicitar a sua intercessão junto do trono de Deus. Por isso me alegro convosco, e sobretudo com as suas irmãs do Carmelo de Colônia e de Eeht, e também com todos os que pertencem a esta Ordem religiosa. Além disso, causa-nos sentimentos de alegria e de gratidão o facto de estarem também presentes nesta celebração litúrgica irmãos e irmãs judeus, e em particular os familiares de Edith Stein.

2. "Manifestai-Vos no dia da nossa tribulação e fortalecei-nos, Senhor" (Est. 14, l2). As palavras desta súplica, que escutamos na primeira leitura da liturgia de hoje, pronuncia-as Ester, uma filha de Israel, em tempos do exílio da Babilônia. A sua oração, dirigida a Deus, no momento de perigo mortal para ela e para todo o se povo nos comove profundamente: "Meu Senhor, meu único Rei, assisti-me no meu desamparo, porque não tenho outro socorro senão Vós, porque o perigo é iminente. Senhor, escolhesses Israel entre todas as nações, e os nossos pais, entre todos os seus antepassados, para fazer deles Vossa herança perpétua... O Deus, poderoso sobre todas as coisas... livrai-nos...!" (Est. 14, 3-19).
O medo da morte, diante da qual Ester treme, surgiu quando, sob a influência do poderoso Aman, um inimigo mortal dos Judeus, se tinha difundido em toda a Pérsia a ordem de exterminar este povo. Com a ajuda de Deus e a entrega da sua própria vida, Ester contribuiu de maneira decisiva para a salvação do seu povo.

3. Esta oração suplicante, que remonta a mais de dois mil anos, é pela liturgia festiva deste dia posta nos lábios da Serva de Deus Edith Stein, uma filha de Israel do nosso século. A oração tornou-se de novo atual, dado que aqui, no coração da Europa, foi uma vez mais concebido o plano de exterminar os judeus. Concebeu-o uma ideologia desatinada, em nome de um racismo satânico, levando-o à prática com consequências desastrosas. Enquanto se desenrolavam os dramáticos acontecimentos da segunda Guerra Mundial, construíram-se rapidamente os campos de concentração e os fornos crematórios. Nesses lugares terríveis encontraram a morte milhões de filhos e de filhas de Israel de todas as idades, desde as crianças até aos anciãos. O tremendo aparato de poder do Estado totalitário não poupou ninguém e adotou as medidas mais cruéis também contra aqueles que tiveram a coragem de defender os judeus.

4. Edith Stein morreu no campo de concentração de Auschwítz, como filha do seu povo martirizado. Não obstante a sua transferência de Colônia para o Carmelo de Echt, ela encontrou ali apenas um refúgio provisório ante a crescente perseguição contra os judeus. Depois da ocupação da Holanda, os nacional-socialistas começaram imediatamente também ali o extermínio dos judeus, excluindo no início os judeus batizados. Mas quando os Bispos católicos dos Países Baixos protestaram numa Carta pastoral contra as deportações dos judeus, os detentores do poder vingaram-se determinando também o extermínio dos judeus de fé católica.

Assim, a irmã Teresa Benedita da Cruz, juntamente com a sua querida irmã Rosa, que se refugiara no Carmelo de Echt, começou o seu caminho para o martírio. Quando chegou a hora de deixar o Carmelo, Edith limitou-se a pegar a sua irmã pela mão e disse: "Vem, ofereçamo-nos pelo nosso povo". Com a força de um discípulo de Cristo e disposta a sacrificar-se por Ele, viu, mesmo na sua aparente debilidade, um modo de prestar um último serviço ao seu povo.

Já alguns anos antes ela se tinha comparado com a rainha Ester no exílio junto da corte persiana. Numa das suas cartas lemos o seguinte: "Tenho a certeza de que o Senhor aceitou a minha vida por todos os judeus. Penso continuamente na rainha Ester, que foi levada do seu povo precisamente para se apresentar perante o rei em favor do povo. Eu sou uma pequena Ester, muito pobre e fraca, mas o Rei que me escolheu é infinitamente grande e misericordioso".

5. Caros irmãos e irmãs. Juntamente com a oração de Ester, encontramos um trecho tirado da Carta aos Gálatas. O Apóstolo Paulo escreve: "Quanto a mim, Deus me livre de me gloriar a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo" (Gál. 6, 14). Também Edith Stein encontrou no caminho da sua vida este mistério da cruz anunciado por São Paulo aos cristãos nesta Carta. Edith Stein encontrou-se com Cristo, e este encontro levou-a, passo a passo, à clausura do Carmelo. No campo de extermínio ela morreu como filha de Israel "para glória do nome santíssimo de Deus", e ao mesmo tempo como Irmã Teresa Benedita da Cruz, isto é, abençoada pela cruz.

Toda a vida, de Edith Stein é caracterizada por uma incansável busca da verdade e está iluminada pela bênção da cruz de Cristo. Teve o seu primeiro encontro com a realidade da cruz na pessoa de uma religiosíssima viúva de um colega de estudos, para a qual a trágica morte do marido não foi ocasião de dúvida para a própria fé, mas uma circunstância em que encontrou na cruz de Cristo a força e o consolo. Edith Stein escreveu mais tarde sobre este episódio: "Foi o meu primeiro encontro com a cruz e com a força que Deus dá àqueles que a levam... Nesse momento a minha incredulidade derrocou e resplandeceu Cristo: Cristo no mistério da cruz". A sua vida e o seu itinerário de cruz estão intimamente ligados ao destino do povo judeu. Numa oração, confessa ao Senhor o que ela sabia: "que a sua cruz agora era posta sobre os ombros do povo judeu" e todos os que compreendessem isto "deveriam estar prontos a tomá-la sobre os próprios ombros em nome de todos. Eu queria fazê-lo, se Ele me mostrasse o modo". Ao mesmo tempo, ela tem a certeza interior de que Deus escutara a sua oração. Quanto mais cruzes gamadas se viam pela rua, tanto mais se elevava a cruz de Cristo na sua própria vida.

Quando entrou no Carmelo de Colônia, com o nome de Irmã Teresa Benedita da Cruz para participar de maneira ainda mais profunda no mistério da cruz de Cristo, ela sabia que tinha "esposado o Senhor no sinal da cruz". No dia da sua primeira profissão pareceu-lhe ser, como ela própria disse, "como a esposa do Cordeiro". Estava convicta de que o seu Esposo celeste queria introduzi-la ao mais íntimo do mistério da cruz.

Fonte:

Em Colônia, no Rito de Beatificação, publicado no jornal L'Osservatore Romano, edição semanal em português n. 20 (912), 17 de maio de 1987, págs. 5/6 (253/254).

domingo, 2 de agosto de 2015

Novena Meditativa a Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) - Dia 3º




3º dia da NOVENA – Biografia de Santa Edith Stein, considerada padroeira dos universitários – O texto abaixo é a Parte 3 do artigo de Renê Courtois

A SOMBRA DA CRUZ

O ano de 1933 se iniciava sob inquietantes presságios: a chegada brutal do nacional socialismo fazia prever perseguições próximas contra os judeus.

Uma tarde, durante a quaresma, Edith Stein teve pela primeira vez uma notícia destas ameaças. Desde esta hora, a dolorosa apreensão de tantos sofrimentos reservados a sua raça não deveria deixá-la mais. No começo de abril, de passagem em Colônia, ela assistiu a uma Hora Santa na capela do Carmelo Lindenthal. Nesta tarde houve entre o Mestre e sua discípula, um compromisso secreto que deveria orientar daí em diante todo o seu destino. Deixemos a palavra a Edith Stein: “Eu me dirigia ao Senhor, nos diz ela, e Lhe dizia que sabia bem que sua Cruz pesaria daí por diante sobre o povo de Israel. Estava pronta a percorrer este caminho. Que o Senhor me indicasse apenas o que devia fazer. Quando terminou o ofício, eu tinha a certeza interior de ter sido atendida. Mas não sabia ainda qual seria a minha Cruz.”

Ela o saberia bem cedo. De retorno a Munster, a 9 de abril seguinte, recebeu o aviso de que todo ensino e toda publicação estavam interditos aos não arianos. Ela compreendeu que sua carreira universitária estava terminada. Vários convites lhe foram feitos do estrangeiro, especialmente da América do Sul. Mas sua decisão era irrevogável. Há doze anos aspirava com toda a sua alma a vida contemplativa. Não tinha soado a hora de realizar enfim o seu desejo íntimo? Não se lhe poderia mais objetar com a necessidade de sua ação no mundo, uma vez que toda atividade pública lhe era interdita.
O abade de Beuron aquiesceu finalmente ao seu pedido. Imediatamente, Edith Stein deu os passos necessários para sua admissão no carmelo de Colônia. Ela deixou Munster, em julho de 1937, e passou um mês em Colônia. Enfim, partiu para Breslau, para se despedir definitivamente dos seus.

Lá, tudo se ignorava de sua decisão. Sua irmã Rosa, a quem ela se confiou em primeiro lugar, ficou surpreendida, mas compreendeu e calou. Pouco a pouco ela se abriu com seus irmãos e irmãs, pedindo-lhes que nada revelassem a sua mãe. Como outrora, passava seus dias de espera na intimidade desta mãe venerada. Idosa, com 84 anos, sentava-se a sua mesa de trabalho e lhe confiava tudo que tinha no coração. Jamais inquiriu dos projetos futuros de sua filha. Por sua vez, Edith não desejava apressar a hora da dura revelação.
O momento, porém, devia chegar. Devemos consignar aqui a emocionante descrição que Edith nos deixou: No primeiro domingo de setembro, eu estava só em casa com mamãe. Ela estava sentada, tricotando perto da janela. Eu estava ao pé dela. De repente, ela me fez a pergunta tanto tempo esperada:
“- O que vais fazer em Colônia, com as religiosas?
- Viver com elas! - respondi

Mamãe não parou de tricotar. Seu novelo de lã se desenrolou. Com as mãos trêmulas, procurou ajeitá-lo. Eu ajudei, enquanto a nossa conversa continuava. Desde este momento a paz tinha terminado. Sobre a casa, pairava uma pesada pressão. De tempos em tempos mamãe me fazia uma pergunta ou outra. Seguia-se um silêncio. Meus irmãos pensavam como minha mãe, mas não desejavam aumentar seu sofrimento. Um de seus genros, contudo, mostrou-lhe que a minha decisão consumaria a minha ruptura com o povo judeu justamente quando se aproximavam terríveis provações. Como esta alusão a minha infidelidade deve ter feito sofrer minha mãe!”

Ela que aceitava com o coração tão leve a Cruz que se abatia sobre sua raça, e que desejava carregar diante de Deus! A separação me foi tão cruel, que ninguém poderia me dizer com certeza, se tal ou qual maneira de agir teria sido a melhor. Eu tinha que dar este passo nos mistérios da fé. Muitas vezes, durante estes dias, pensei: Qual de nós duas, mamãe ou eu, não saberá mais resistir?
“Mas nós ambas aguentamos até o último dia.”

A 12 de outubro, aniversário de Edith e, ao mesmo tempo, festa judia dos Tabernáculos a jovem acompanhou, uma vez mais, sua mãe à sinagoga. Durante o longo trajeto de volta que sua velha mãe queria fazer a pé, a fim de abrir o coração com a filha, ela lhe perguntou:
“- O sermão não foi belo?
- Certamente mamãe!
- Então também se pode ser piedosa entre os judeus?
- Por certo, se não se aprendeu a conhecer outra coisa.” Ela teve então esta dolorosa reflexão:
“- Porque então aprendeste a conhecer outra coisa? Eu não quero reprovar nada a Jesus. Ele pode ter sido uma criatura muito bondosa. Mas por que ele quis se fazer Deus?”
“Neste dia havia muita gente em nossa casa. Um após outro nossos hóspedes se despediram. Por fim eu fiquei só, com mamãe. Com as mãos no rosto, ela começou a chorar. Eu me coloquei atrás de sua cadeira e abracei docemente esta venerável cabeça branca. Assim ficamos longo tempo, até que ela quis se deitar. Nesta noite, não fechamos os olhos nem por um momento.”

O CARMELO

No dia seguinte pela manhã Edith Stein partiu para Colônia, e, dois dias depois encontrava-se diante desta clausura que há tanto tempo desejava transpor.
A 15 de outubro de 1933, com 42 anos de idade, Edith Stein terminava o estranho itinerário que a conduzira de Husserl ao Carmelo. Daí em diante, começava uma nova estrada. A estrada da irmã Teresa-Benedita da Cruz. Este foi o nome religioso que tornou, a 15 de abril de 1934, ao receber o hábito. No dia seguinte a esta cerimônia, o provincial dos Carmelitas pediu-lhe que retomasse daí por diante, em seu tempo livre, seu trabalho científico de filosofia.

Assim logo se encontrou em sua cela, entre seus livros. Aí comporia a principal obra de sua vida: L´ être fini et l´être éternel, uma expicação da filosofia moderna, de Descartes a Heidegger. Esta obra em dois volumes não pode ser publicada na época, por causa dos decretos que impediam toda literatura não ariana.

Apesar do isolamento do claustro, ela continuava em comunicação com a sua família. Cada semana, por uma permissão especial, enviava uma carta a sua mãe. Por muito tempo suas cartas não tiveram resposta. Afinal, recebeu uma carta, testemunha do amor materno enfim vencedor. A partir deste momento, as cartas de sua irmã Rosa traziam-lhe de cada vez algumas palavras de sua mãe. Durante o verão de 1936, mulher admirável, com 87 anos de idade, caiu doente e seu estado piorou rapidamente. A 14 de setembro, na festa de Exaltação da Santa Cruz, fazia-se no Carmelo a cerimonia de renovação dos votos. Quando chegou a vez da irmã Tereza da Cruz, ela teve de súbito a clara intuição: “Minha mãe está ao meu lado”. No mesmo dia, um telegrama trouxe a notícia do falecimento. Sua mãe tinha expirado na hora da renovação de seus votos.

Durante o Advento de 1936, Edith Stein teve a alegria de acolher sua irmã Rosa que recebeu afinal o batismo, tanto tempo retardado para não ferir ainda mais a velha mãe.
O céu cobria de nuvens cada vez mais sombrias. A perseguição nazista, longe de diminuir, redobrava de violência. Era uma pérfida campanha contra a religião de um modo geral, e contra as ordens religiosas em particular. A irmã Teresa temia que a sua presença expusesse o Carmelo de Colônia a represálias. Assim, a sua partida para a Holanda foi decidida.
Durante a noite de S. Silvestre, em 1938, ela passou clandestinamente a fronteira e dirigiu-se ao Carmelo de Echt, no Limburgo Holandês. Rapidamente adaptou-se. Às seis línguas que já dominava, acrescentou o flamengo. Prosseguindo seus trabalhos intelectuais, acabou seu estudo sobre S. João da Cruz: A Ciência da Cruz.
Nesta época, sua irmã Rosa veio encontrá-la no Carmelo de Echt, como carmelita de terceiro grau.

O HOLOCAUSTO

10 de maio de 1940. Em meio ao fragor das explosões e ao rugir dos motores, a possante máquina de guerra nazista se põe em marcha. A Holanda é rapidamente ocupada. As perseguições anti-semitas desenvolvem-se com violência.
Um perigo imediato pesa, de novo, sobre a irmã Teresa da Cruz. Por isto, é decidida uma nova evasão para a Suíça, para o Carmelo Le Pâquier, perto de Friburgo.
Era o começo de 1942. As formalidades burocráticas se alongavam. Uma convocação da Gestapo já chamara a religiosa a Maestricht e depois a Amsterdam. A sua presença não tinha escapado à sinistra polícia. As ameaças se faziam cada vez mais temíveis. Felizmente, tudo estava pronto para a partida... Mas não eram estes os desígnios de Deus.
A 2 de agosto de 1942, a comunidade de Echt tinha se dirigido ao coro, como de costume, para a oração matinal. Bateram na porta do convento. Dois oficiais apareceram e solicitaram a presença das irmãs Stein. Estas, supondo que lhes traziam o passaporte para a Suíça, deixaram a capela.

Ao entrar no parlatório, empalideceram. Os SS as esperavam. Tiveram ordem de se aprontar para deixar o Carmelo em dez minutos.

Edith Stein voltou ao coro, ajoelhou-se uma última vez diante do Santíssimo Sacramento e deixou a comunidade, com estas palavras: “Por favor, irmãs, rezem por nós.”
Os enérgicos protestos da Madre Superiora não tiveram nenhum efeito. Rapidamente as duas religiosas reuniram o que lhes permitiram levar: uma coberta, uma caneca, uma colher e algumas provisões.

Na rua, onde uma multidão se tinha reunido para protestar, estava um grupo dos SS. Fizeram entrar as duas irmãs em uma viatura que partiu para um destino desconhecido.
Em Echt, onde a angústia reinava, recebeu-se um telegrama do campo de concentração de Amersfort. Edith Stein pedia algumas vestes quentes e seu breviário.
As irmãs enviaram rapidamente a sua encomenda, por intermédio de jovens holandeses que puderam entrar em comunicação com as duas religiosas. Eles as encontraram muito calmas, sem a menor queixa, mas na incerteza total de seu futuro. Uma carta recebida pouco depois, anunciava a sua partida iminente para leste. Veio ainda uma palavra, última confidência que brilhou como uma última chama na noite: “A ciência da Cruz não se pode adquirir sem que ela nos pese realmente sobre os ombros. Desde o primeiro instante eu estava convencida, e a mim mesma me dizia: Ave crux, spes unica...”

O silêncio total se seguiu. Soube-se que a 6 de agosto, primeira 5a. feira do mês, um comboio de judeus, quase todos convertidos, tinha partido em direção da Polônia.
O último traço conhecido desta eminente religiosa é um pequeno bilhete a lápis remetido por mão desconhecida a uma irmã de Friburgo: A caminho da Polônia. Lembranças da Irmã Teresa Benedita da Cruz.

E, após, a noite. Ignoramos onde terminou o seu calvário. Não se sabe em que lugar este olhar profundo que tinha perscrutado sempre os enigmas do homem e do universo, encontrou afinal a luz sem sombras.

Alguns disseram, com certo fundamento ao que parece, que foi nas câmaras de gás do sinistro campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia. Mas nada foi confirmado oficialmente. Por que então perseguir questões sem utilidade?
“Nós não a procuramos mais na terra, escreviam as Carmelitas de Colônia, mas perto de Deus que aceitou seu sacrifício e dará a recompensa ao povo pelo qual ela sofreu e morreu.”

A notícia de sua morte, numerosos testemunhos de admiração e de veneração chegaram de todos os lugares da Alemanha. Por sugestão do professor Grabmann, o círculo cada vez mais numeroso de seus amigos, antigos alunos e admiradores, fez votos de que, por sua beatificação e canonização ela se transformasse em exemplo luminoso do conhecimento e do amor de Deus.

Sua clareza não cessa de se estender aos meios intelectuais e universitários. Como escreveu o jesuíta alemão Frans Hillig: “É preciso que, graças aos jovens cristãos de todos os países da Europa, o exemplo desta vida seja arrancado ao passado para que continue neles cada vez mais vivo e atuante”.

Fim.

Fonte: Convertidos do Século XX, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1960
Tradução: Hoche Luiz Pulchério

sábado, 1 de agosto de 2015

Novena Meditativa a Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) - Dia 2º




2º dia da NOVENA – Biografia de Santa Edith Stein, considerada padroeira dos universitários – O texto abaixo é a Parte 2 do artigo de Renê Courtois
A HORA DE DEUS
No outono de 1921, Edith Stein passou alguns dias de férias na casa de seus amigos íntimos, os Conrad Martins, na sua encantadora propriedade rural de Bergzabern, na Baviera. Gostosamente a estudante vinha repousar. Na ausência de seus amigos, ela usava intensamente a biblioteca da casa. Era lá, neste domínio dos livros a que era particularmente afeiçoada, que a Providência deveria alcançá-la no dia escolhido. Escutemos o que diz Edith Stein:
“Um dia escolhi ao acaso uma obra bastante imponente. Intitulava-se: Vida de Santa Teresa, escrita por Santa Teresa. Eu comecei a ler. Repentinamente senti-me tão cativada, que não interrompi mais a leitura até o fim. Quando fechei o livro, pensei comigo mesma: esta é a verdade!”

Fora, a aurora começava a surgir. Edith Stein tinha passado a noite inteira lendo. Bruscamente, irrompia a luz de Deus na sua alma.
A sua primeira providência, nesta manhã, foi ir à cidade comprar um catecismo católico e um livro de missa. Começou imediatamente a estudá-los com todo o cuidado, e rapidamente assimilou-os. Em seguida resolve assistir à missa paroquial em Bergzabern.
Pela primeira vez penetrava em uma igreja católica. Vejamos suas impressões: “Nada me pareceu estranho: graças ao estudo que havia feito, podia compreender as cerimonias até aos detalhes. Um padre venerável subindo ao altar celebrou o Santo Sacrifício com profundo fervor. Terminada a missa, esperei que o celebrante terminasse a sua ação de graças.”

“Seguindo-o ao presbitério pedi-lhe o batismo. Atônito, respondeu-me que a recepção na Igreja Católica exigia uma preparação. Ele desejava saber durante quanto tempo eu tinha recebido instrução e quem me havia dado. Como resposta eu lhe disse: por favor, padre, interrogue-me!”

O padre começou então o seu exame. As respostas foram perfeitas. Toda a doutrina católica foi passada em revista. Cheio de admiração, o cura não pode mais recusar o batismo.

A 1 de janeiro de 1922, Edith Stein foi batizada, escolhendo o prenome de Teresa. Comungando neste mesmo dia, permaneceu daí em diante fiel à prática da comunhão quotidiana.

A 2 de fevereiro seguinte, recebe das mãos do bispo de Spire, Monsenhor Sebastião, o sacramento da confirmação.

Sobre a luz radiosa destes dias de graça, pairava uma sombra: sua mãe.
Desde a primeira infância, Edith Stein tinha se unido a esta mãe admirável, cujos sentimentos mais íntimos ela partilhava. O trabalho mais urgente não interrompia a sua correspondência semanal. Qual seria a reação desta mãe crente, israelita exemplar, ao saber da decisão de sua filha? Poderia ver na conversão de Edith ao catolicismo outra coisa além de uma suprema infidelidade? Não expulsaria a filha de casa?
Edith desejava dar-lhe, ela mesma, a notícia. Partiu para Breslau. Encontro patético da mãe e da neófita! Caindo de joelhos diante dela Edith confessou:
“Mamãe, eu sou católica!”

Não houve nada. Mas pela primeira vez em sua vida, Edith Stein viu sua mãe chorar. A uma notícia tal, a velha forte sentiu que as forças a abandonavam. E não obstante, apesar da profunda vala que as separaria daí em diante, a mãe e a filha sentiram que os seus corações permaneciam profundamente unidos.
Eis como uma amiga da família descreveu a nova situação: “Estou convencida, dizia ela, que a transformação que se operou em Edith e que irradiava de todo o seu ser como uma força sobrenatural, desarmou pouco a pouco madame Stein. Mulher de uma piedade profunda, ela sentia, sem compreender, a santidade que emanava de sua filha e, apesar de sua dor, reconhecia claramente a impossibilidade de lutar contra o mistério da graça. Desde o começo nós tínhamos todos notado que Edith tinha mudado. E antes como depois da conversão, ela permanecia profundamente unida aos seus, e fazia o impossível para nada modificar nas relações familiares.”

A pedido de sua velha mãe, Edith Stein permaneceu seis meses com a família. Por piedade filial, continuava a acompanhá-la à sinagoga. Longe de renegar o Antigo Testamento, considerava-o agora como o lento caminho para o Evangelho, que ele representava no plano de Deus. Seu recolhimento profundo arrancou de sua mãe a reflexão: “Eu nunca vi ninguém rezar como Edith.”

O CHAMADO DO SILÊNCIO

A conversão tinha operado em Edith Stein uma evolução profunda. Ela agora procurava o seu lugar no campo do Senhor. Renunciando às suas funções na Universidade de Friburgo, foi para Spiro, onde se colocou sob a direção do cônego Schwind. A graça trabalhava em sua alma. Pouco a pouco, uma atração profunda a conduziu ao sacrifício total. O claustro a solicitava. Entretanto, seus dirigentes dissuadiam-na vivamente, considerando que seus dons excepcionais indicavam-na para a vida ativa no mundo.

Assim, ela viu seu desejo realizar-se pela metade, quando se lhe permitiu o retiro à calma de um liceu de religiosas dominicanas, para ensinar a moças. Ao mesmo tempo, obteve a permissão de partilhar completamente da vida da comunidade de religiosas. Grande lição para tantos espíritos superficiais! Na hora mesma em que esta mulher extraordinariamente dotada, podia aspirar às mais famosas cátedras das universidades europeias, fechava-se no silêncio de um horizonte aparentemente sem brilho. Mas aí encontrava Deus e a Verdade que durante tanto tempo havia procurado por caminhos ásperos. Que mais poderia desejar?
Eis o testemunho que nos dão dela:
“Durante longas horas rezava. Quando as Irmãs chegavam à capela, às quatro ou cinco horas da manhã, a doutora, já estava ajoelhada no seu lugar. Nunca ela procurava sobressair; pelo contrário, apagava-se em tudo. E apesar disso, desde o primeiro contato todos se sentiam subjugados pela grande santidade que irradiava suavemente de sua pessoa.”

Suas funções de professora a encantavam. Ela encontrava nelas a possibilidade de abrir os jovens espíritos às riquezas de seu próprio mundo interior, de fortificar a sua fé e de os encaminhar a uma vida verdadeiramente cristã. Ela possuía uma ideia verdadeiramente elevada de sua missão de ensino, como nos mostra esta confidência feita a uma religiosa:
“O importante, é que os que ensinam possuam verdadeiramente o espírito de Cristo, e O encarnem em si mesmos. Mas além disso, um outro dever lhes é afeto: conhecer bem a vida que levarão mais tarde aqueles que lhes são confiados. A geração jovem dos nossos dias atravessou muitas crises. Ela não saberia nos compreender. A nós portanto, cabe tentar compreendê-los. Assim poderemos, talvez, fazer-lhes um pouco de bem.”

Os antigos alunos de Edith Stein são unânimes na inesquecível lembrança que guardam de sua professora. De um punhado de testemunhas, escolhemos apenas um depoimento. É de uma das mais jovens alunas de Edith Stein: “Eu estava no Instituto Santa Madalena havia apenas um ano. Tinha 17 anos. A Senhorita Stein nos ensinava a literatura alemã. Para dizer a verdade, ela nos ensinava tudo. Nós éramos ainda muito jovens, mas jamais esqueceremos o encanto de sua personalidade. Todos os dias, podíamos vê-la ajoelhada à nossa frente, durante a Santa Missa. Assim nos mostrava o que podia ser uma fé profunda, perfeitamente harmonizada com uma atitude antiga na vida. Para nós que estávamos na idade da indecisão, ela era um exemplo pela sua conduta simples. Nunca encontrei falha alguma em suas decisões, sem dúvida porque ela era uma pessoa suave, calma, que se dirigia a nós mais por sua maneira pessoal de agir do que por palavras. Em suas críticas, a bondade se aliava à justiça. Nós sempre a vimos serena e fina. De espírito esclarecido, soube nos conduzir, pela primeira vez, a uma sessão teatral. Coisa bastante rara na época, para meninas de colégio. Representava-se Hamlet. Nós vimos a peça pelos olhos delas, tão bem nos tinha introduzido no universo de Shakespeare. E que coração aberto a todas as belezas do mundo! Assim ficará ela para sempre gravada em nossa memória.”

SEU RENOME SE ESTENDE

Levada por um desejo de um conhecimento mais profundo de sua fé, Edith Stein tinha retomado seu trabalho filosófico durante suas horas vagas. Pela primeira vez abordava a obra de S. Tomás de Aquino.

Entretanto, permanecia profundamente ligada ao mestre eminente que tinha dirigido os seus primeiros passos nos caminhos do espírito. Assim é que foi para ela uma alegria oferecer-lhe, em 1929, um trabalho erudito, intitulado: “A fenomenologia de Husserl e a Filosofia de S. Tomás de Aquino.”

Aliás, o mundo católico tinha a sua atenção voltada para ela, apesar de sua semi-reclusão. De quando em quando, era solicitada para conferências filosóficas, pedagógicas e religiosas. Ela as pronunciava em cidades próximas: Heidelberg, Friburgo, Colônia, etc. A forte impressão que deixava, levou longe o seu renome, e logo teve que falar em Viena, em Zurich, em Praga.

Sua própria celebridade poderia constituir um perigo para ela. Mas Deus a conduzia. Depois de cada conferência, tinha pressa de voltar a sua amada solidão de Spire e mergulhar nas obras de S. Tomás.

Assim passavam os anos. Desde 1928, Edith Stein seguia os ofícios da Semana Santa na célebre abadia de Beuron. Este mosteiro viria a se tornar para ela uma pátria espiritual. O abade de Beuron, Dom Rafael Walzer, já era o seu diretor espiritual. Eis o julgamento que êle nos deixou sobre ela: “Raramente encontrei uma alma que reunisse tantas e tão altas qualidades. E com uma simplicidade e naturalidade extremas. Ela tinha permanecido inteiramente mulher, com uma sensibilidade fina e maternal. Mostrava-se simples com os simples, cultivada com os intelectuais, inquieta com aqueles que se inquietavam.” O prelado conseguiu convencê-la que as suas funções atuais de professora do Instituto Santa Madalena de Spire não correspondiam ao seu valor intelectual e que seu dever era de levar avante o seu trabalho científico. Rendendo-se à evidência ela reconheceu que em, Spire não poderia se dedicar a uma obra filosófica de importância. Assim, decidiu deixar Spire em março de 1931, e se fixar na sua casa de Breslau.

O grande trabalho filosófico que iniciava era a tradução para o alemão das Quaestiones disputatas de Veritate de S. Tomás. A tradução, primeira em língua alemã, da importante obra do Doutor Angelical, apareceu em 1932, e impressionou os meios científicos pelo seu vocabulário filosófico moderno e elegante clareza de estilo.

Sua reputação já a tinha precedido em Breslau. Cedo ela se tornou o centro de atração de um numeroso grupo de jovens intelectuais, judeus em sua maioria, interessados na fé católica. Muitos se converteram, e Edith Stein foi a madrinha. Na sua família, ela teve a felicidade de ver sua irmã Rosa reunir-se a ela no catolicismo. Mas sua velha mãe, octogenária, permanecia inabalavelmente refratária ao catolicismo.

Vários estabelecimentos de ensino superior tendo feito apelos à eminente filósofa, ela aceitou enfim uma cadeira de pedagogia na universidade de Munster, na Westphalia. De imediato, conquistou a estima de todos. Uma brilhante carreira universitária parecia se abrir novamente diante dela.

Mas, Deus tem seus caminhos, que não são os nossos. Ele tinha escolhido, no seio de seu povo, esta alma privilegiada, Ele a queria totalmente para Si.

Amanhã continua...

Fonte:

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Novena Meditativa a Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) - Dia 1º


1º dia da NOVENA MEDITATIVA 
Biografia de Santa Edith Stein, considerada padroeira dos universitários 
O texto abaixo é a Parte 1 do artigo de Renê Courtois


FINDAVA O INVERNO DE 1945
“A pequena cidade de Echt, no Limburgo holandês, encolhida de frio, ansiava pela primavera próxima para curar suas feridas. Pouca gente nas ruas. Trânsito quase nenhum nesta manhã de libertação. Um automóvel militar que atravessava a cidade atraiu a atenção dos habitantes. Tinha sido reconhecido o Padre Superior do Carmelo de Geleen, acompanhado do Rev. Padre van Bréda, professor da Universidade de Louvain. O carro parou diante de um montão de ruínas, o antigo Carmelo, destruído pelos bombardeios. Os habitantes ficaram surpresos de ver estes dois eclesiásticos descerem, abrirem caminho penosamente nos escombros, e iniciar a procura de papéis esparsos e enlameados. Quando tiveram certeza de não encontrar mais nenhum fragmento de papel, reuniram com grande cuidado o fruto de seu trabalho e partiram.

Que interesse poderia ter este resto de papéis? Tratava-se de folhas manuscritas de uma importante obra de filosofia, abandonada na sua cela por uma carmelita, bruscamente deportada para o Leste em agosto de 1942. L´être fini et l´être éternel (A criatura mortal e o Ser eterno) assim se chamava esta obra filosófica, a mais importante da vida da irmã Thérèse-Bénédicte de la Croix.
Este nome religioso era o de Edith Stein. Judia convertida, discípula preferida do grande filósofo Edmundo Husserl, célebre no mundo intelectual alemão antes de abraçar a religião, ela foi, segundo o testemunho de Dom Walzer, abade de Beuron, uma das mulheres mais eminentes de nossa época.
Sua vida e sua conversão são um admirável canto de fidelidade à luz da graça. Tudo parecia separá-la do cristianismo seu meio natal, a educação judia que recebeu, o estudo aos pés de um mestre eminente, cuja filosofia devia seduzir fortemente sua grande inteligência, a perspectiva de uma carreira universitária que se prenunciava das mais brilhantes. Passo a passo ela soube responder ao chamado de Deus, triunfando sucessivamente de todos os obstáculos que a separavam d´Ele.

FILHA DE ISRAEL

12 de outubro de 1891. Havia festa na família Stein. A grande casa da rua Saint-Michel, em Breslau, de aspecto geralmente severo, parecia sorrir neste dia. As seis crianças do casal Stein se acrescentava uma menina, que se chamaria Edith. Para termos uma idéia da atmosfera deste lar israelita, é necessário visualizar certas águas fortes de Rembrandt, onde o artista nos transmitiu, com fidelidade, a fisionomia dos interiores judeus do ghetto de Amsterdam.

Desde seus primeiros passos, a pequena Edith estava enquadrada em um clima do Antigo Testamento. Tudo lhe falava do Povo de Deus. As imagens da Bíblia nas paredes da casa, os motivos gravados sobre as arcas de carvalho, as preces tradicionais recitadas em hebreu, os ritos do Talmude fielmente observados e sobretudo o admirável exemplo de uma mãe profundamente religiosa, mulher forte da Escritura Sagrada, cuja extraordinária energia e zêlo infatigável vão se desenvolver sem descanso, a partir da morte de seu esposo.

Edith Stein tinha três anos quando seu pai morreu subitamente, em uma viagem de negócios. Sem hesitação, a mãe chamou tudo a si: o importante comércio de madeiras e a educação das sete crianças. Ela fez prosperar a ambos. Zelosa antes de tudo da educação de seus filhos, ela jamais deixou de conduzi-los à sinagoga, nos dias de sabat. Ela conservou sempre aos olhos de seus filhos a autoridade indiscutível, diante da qual se inclinavam com amor e respeito. Edith Stein escreverá dela mais tarde:
‘Ainda crianças, podíamos ler, no exemplo de nossa mãe, a verdadeira maneira de nos comportar. Quando ela dizia: Isto é um pecado, nós sabíamos que ela se referia a algo de odioso e indigno.’
Edith era-lhe particularmente cara. Frequentemente a mãe sonhava com um grande futuro para sua filha predileta. Seu desejo deveria se realizar, mas de que maneira tão diferente! Graciosa e delicada, Edith era tratada carinhosamente por seus irmãos e irmãos que viam nela uma criança singularmente dotada. De um espírito muito receptivo, de inteligência viva e precoce, foi para ela uma alegria entrar na escola primária, no outono de 1897. Assim começava uma vida de estudos que ela não abandonaria mais até sua morte.

OS CAMINHOS DA VERDADE

Escola primária, ginásio, universidade: Edith Stein seguia o curso normal dos estudos, na sua cidade natal de Breslau. Bem cedo revelou talento excepcional. Uma de suas colegas de ginásio nos diz:
“Embora várias alunas fossem bem dotadas, Edith Stein eclipsava a todas pela sua inteligência e pelos seus conhecimentos. Aplicada, ela não mostrava nenhuma inveja, e eu conservo sua lembrança como a de uma moça silenciosa, muito interior e muito cativante... Fora de sua vida de estudos, ela tomava parte em todas as nossas reuniões e jamais era uma desmancha-prazeres. Podíamos nos dirigir a ela em todas as dificuldades. Sempre pronta a prestar um serviço e a dar um conselho, seu julgamento era refletido e seguro.”

O interesse vivo que Edith mostrava por seus estudos não deixou de inquietar uma mãe vigilante como a sua. Inquietação bem fundada, aliás. Os estudos de filosofia prejudicavam a piedade da moça. Sempre acompanhando sua mãe à sinagoga, seu espírito se abria a outros horizontes. Pouco a pouco, ela se desligava de toda crença profunda em um Deus pessoal. Nós não devemos, entretanto, aceitar sem reservas, o que ela disse um dia: que permaneceu atéia até vinte e um anos. Como se ela não tivesse também escrito: A sede da verdade era a minha única prece.
Esta lúcida paixão da verdade não era já uma homenagem inconsciente ao verdadeiro Deus?
Deixando Breslau, ela irá seguir em Gottingen os notáveis ensinamentos do grande pensador Edmundo Husserl. Em Gottingen deu livre curso a sua paixão dos estudos e se mostrou de imediato como uma das adeptas mais brilhantes da fenomenologia husserliana. Esta nova escola filosófica, com a sua volta à objetividade, sua lógica precisa, sua aspiração à pureza integral das coisas, respondia bem ao temperamento da jovem judia.

Cedo ela se tornou uma das figuras de primeiro plano de um pequeno grupo de discípulos de Husserl, alguns dos quais adquiriram mais tarde fama mundial, como Dietrich von Hildebrand, Hans Lipps, o russo Alexandre Koyré, o canadense John Bell, o francês Jean Hering, etc. O professor Adolphe Reinach, israelita como Husserl e vários de seus alunos, reunia-os na sua casa. Os debates, por vezes apaixonados, prolongavam-se até altas horas da noite. Nesta época, passa por Gottingen o professor Max Scheler. Uma série de conferências religiosas que proferiu tiverem profunda repercussão. Todo um movimento de conversões se delineou. Dietrich von Hildebrand entrou na Ordem Terceira de S. Francisco. Koyré e sua mulher se aproximaram fortemente da Igreja católica. Adolphe Reinach abraçou o cristianismo durante a guerra de 1914-1918. Só Edith Stein permanecia inabalável. No seu quarto de estudante, os livros se empilhavam. Mais inflexível que nunca, ela se encarniçava na procura de seu único ideal: a verdade na ciência. Mas, sempre aberta à vida, dos outros, ela permanecia a companheira encantadora e devotada a quem todos podiam recorrer.

Agosto de 1914. A guerra. Nem por um instante, Edith Stein hesitou para interromper seus caros estudos e engajar-se na Cruz Vermelha. Durante dois anos devotou-se ao serviço dos feridos, no hospital militar de Mahrisch-Wisskirchen. Nesse meio tempo, em 1916, o professor Husserl acabava de ser nomeado para a Universidade de Fribourg-en-Brisgau. Considerando Edith Stein como sua discípula predileta, convidou-a para assistente particular. Encarregada de classificar e organizar os manuscritos do mestre, ela adquiriu desta maneira um conhecimento muito profundo de sua doutrina. Em 1917, doutorou-se com a maior distinção, defendendo um tese sobre o problema da imanência.

Seu desejo de encontrar a Deus era cada vez mais forte. Seu culto intransigente da verdade encaminhava-a pouco a pouco para a claridade total. Um estudo publicado pouco depois da guerra sobre a Alma das plantas, A Alma dos animais, A Alma dos Homens, revelava um singular aprofundamento e talvez até uma conversão interior.

Magnífico exemplo de um itinerário rigorosamente filosófico que, em vez de afastar a alma de Deus como alguns o pensam, leva-a infalivelmente para Ele.

Amanhã continua...

Fonte:

sábado, 18 de abril de 2015

Podcast CEFAScast fora do ar




Irmãos, algumas pessoas estão enviando mensagens sobre não conseguirem baixar os áudios mp3 dos podcasts.
Gostaria de informar que os downloads estão desabilitados.
Sinceramente não estou em condições financeiras no momento de manter o servidor no ar.
O podcast foi descontinuado por dois motivos:
1) Não consegui uma pessoa para me ajudar fazendo parte do projeto (o que busquei muito e ainda procuro, pois sempre tinha que fazer tudo sozinho).
2) Não consegui doação para o projeto. Mantive até onde consegui com recursos pessoais.

Se alguém quiser ajudar financeiramente é só acessar a página de "Doações" no topo deste site.
Se alguém se interessar em me ajudar fazendo parte, um membro do projeto é só entrar em contato comigo.

Um grande abraço! Deus os abençoe!
Conto com sua oração.

Alessandro Silva
geruah@gmail.com
27 996527061

domingo, 23 de novembro de 2014

CEFAScast no Whatsapp

Atenção! Apesar de manter a postagem abaixo em nosso site, quero comunicar que saímos do Whatsapp e mudamos para o aplicativo Telegram! Para conhecer este aplicativo clique aqui.
Após instalá-lo é só procurar nosso canal lá digitando na busca por @missaocefas ou clicar neste link pelo celular:


Irmãos, como já publiquei aqui eu criei uma lista de transmissão onde diariamente eu envio pessoalmente mensagens sobre a liturgia do dia, santo do dia, etc. Mensagens variadas mais focadas na espiritualidade e formação nas riquezas da fé católica. Se você não sabe ainda clique aqui para ver a postagem anterior a respeito.

Minha amiga Roberta numa conversa me inspirou a começar a compartilhar também os aúdios que tenho do estudo Bíblico do professor Felipe Aquino. Então a partir desta segunda feira estarei compartilhando os áudios referentes a este maravilhoso estudo bíblico.

São áudios de 10 a 20 minutos onde estudaremos a bíblia completa. Quer fazer parte da lista? Salve meu número nos seus contatos e me envie uma mensagem solicitando que eu o adicione.

Observação: Não é um Grupo de Whatsapp!!!!
É uma lista de transmissão. Para saber melhor o que é uma lista de transmissão no Whatsapp, clique aqui.

Um grande abraço! Deus te abençoe!

Alessandro Silva
@missaocefas


Para adquirir o estudo completo você pode comprá-lo na loja da Editora Cléofas:
http://loja.cleofas.com.br/colec-o-curso-biblico-do-genesis-ao-apocalipse-11-cd-s.html